Realização MLB - Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas

Mostra Atravessamentos

Brasil, 2020. Isto não é um roteiro de ficção científica.

Ameaças de catástrofes sem precedentes, que de certo modo acompanham os contornos geopolíticos de todo o globo, misturam-se ao cinismo brutal de uma política mortífera que brinca com o valor da vida. No centro desse labirinto desolador, dessa encruzilhada política que consome nossa história, sobrepondo-se às muitas camadas de violência que a memória estende, encontra-se a questão primordial do território.

Territórios que faltam, contrariando o direito fundamental de morar. Territórios expropriados, latifúndios que usurpam o solo de povos originários constantemente dizimados. Territórios em disputa, na zona condensada de injustiças que costumamos chamar de “cidade”. Territórios distantes, na crueldade sofrida pelos sujeitos das diásporas. Territórios inexistentes, onde os próprios mundos daqueles que os desejam estão sob ameaça.

Em meio a lutas tão concretas pela vida e pela terra, pela possibilidade de existir e construir lugar no mundo, de que modo o cinema pode agir e atuar para estar à altura das tarefas incansáveis de quem ainda resiste? Como pode essa máquina de fazer imagens, de contar histórias, de recordar o mundo, tantas vezes colocada ao lado de quem perpetra, viola ou oprime, assumir o enfrentamento do poder, ajudando a reverter os desequilíbrios de todo um cosmos? Não são perguntas fáceis, mas é algo delas que nos move a reunir esse conjunto de filmes sob o signo do atravessamento – isto é, da interseção, da convergência, da repercussão entre diversas lutas. Indígenas, quilombolas, periféricas, rurais, femininas, populares, ambientais, lutas que faltam palavras para nomear. Filmes, por sua vez, feitos não necessariamente para a tela de cinema, para o modelo hegemônico da sala escura, mas, sobretudo, filmes da lona, feitos para a lona, esse símbolo elementar de uma urgência, de um processo, de um lugar sonhado muito real.